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Darah Gomes

Colorindo Vidas

De blog, a canal no YouTube, e coluna no V9, o Colorindo Vidas volta a trazer as principais notícias sobre o mundo da moda. Porque não se trata apenas de roupa, se trata de arte. Sobre cores e modelos que trazem significado e expressões da nossa realidade.

Vidas Negras Importam – A valorização da mulher negra na moda

Enviado por: 02/06/2020

(Imagem: D Rodrigues Photography)

O início do mês de maio foi marcado pelo aniversário de 132 anos da abolição da escravatura no Brasil e terminou com tristes episódios de racismo. Como sempre falei, a moda também é política, mas acima de tudo, ela é humana. Ela é feita para expressar a individualidade de cada um, por isso, em tempos tão sombrios como esse não há possibilidade de trazer outro assunto a não ser sobre como vidas negras importam.

Dandara em manifestação do Dia Internacional da Mulher realizada em Uberlândia-MG (Imagem: Reprodução/Instagram)

Como todo o racismo estrutural da sociedade, muitas vezes a moda é usada como forma de ampliar a desigualdade. A negritude teve a pele e cultura transformadas em fantasias e até maquiagens. E mesmo após tantas discussões, os adereços e penteados criados por e para pretos continuam se tornando motivo de distinção e apropriação. Em conversa com a ativista negra Dandara Tonantzin, ela falou sobre como costumes representativos foram tomados pelo capitalismo e acabaram transformando a ideia de resistência em uma mera tendência fashion. “O movimento percebe que alguma coisa está dando lucro e tira todos os signos e códigos de resistência, tornando aquilo um mero produto na prateleira. O turbante e brincos, por exemplo, não são meros acessórios, eles são carregados de significados. Os reis e rainhas na África não usavam coroas, eles utilizavam turbantes, e quanto mais alto fosse, mais poder eles tinham. As estampas também estavam diretamente relacionadas com aquela cultura, aí o sistema capitalista pega o turbante e transforma em um lenço étnico e coloca para vender nas lojas a R$29,90”, explica.

Enquanto os pretos veem a cultura sendo apropriada por brancos, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva revelou que 73% das mulheres negras não se sentem representadas na mídia. “Esses espaços de referências ainda não são pensados e destinados à população negra. A gente ainda não se vê na moda, nos espaços de poder, na televisão. Isso vai tirando de nós essas potências e possibilidades”, expôs Dandara. Nos anos 2000, o cineasta mineiro Joel Zito Araújo fez um documentário, chamado ‘A Negação do Brasil’, mostrando como os pretos são retratados nas telenovelas. Em uma entrevista concedida ao programa Conversa com Bial, o diretor afirmou que as coisas mudaram, mas pouco. “54% dos brasileiros se assumem como negros ou pardos, portanto a minoria nesse país não é negra. (…) Eu acho que a maior parte dos cineastas brasileiros ainda tem o olhar de que todo brasileiro é branco e é isso que incomoda, a revolta negra parece a revolta da minoria. (…) O grande grito é de inclusão, respeito e igualdade de tratamento, não somos minorias e queremos ser parceiros iguais”, finaliza.

Querendo ou não, a mídia e a moda são essenciais para mostrar o valor da cultura negra. Papéis representativos e que mostrem o real valor e significado por trás da negritude e dos adornos podem e devem trazer consciência para população.

(Imagem: Reprodução/Instagram Hanifa)

A falta de reconhecimento despreza a vida de tantas pessoas que lutam diariamente para ter mais voz, por isso também é importante valorizarmos aqueles que chegaram longe e fizeram ou estão fazendo história. Esse é o caso da estilista negra Anifa Mvuemba, de 29 anos, que criou o primeiro desfile 3D para apresentar a coleção-cápsula da linha Pink Label Congo durante a pandemia do coronavírus. Para Vogue Teen, a designer contou que já pretendia investir no digital e o isolamento social fez com que a ideia finalmente saísse do papel. O tema da coleção foi o país em que a designer mora, República Democrática do Congo, na África Central. Ela afirmou que queria expor os problemas do local, “minhas criações são muito mais sobre as mulheres que vestem as minhas peças do que uma peça em si. Além disso, acredito que esse era o momento ideal para falar sobre o Congo. Nós temos um problema muito sério por aqui, mas também fazemos parte dele”, afirmou. Em entrevista a revista Elle, Anifa expôs problemas como trabalho infantil ilegal e abuso de poder. Para ajudar os congoleses, a jovem destinou 20% do valor arrecadado com as peças para famílias carentes.

O que não dá para negar é o grande número de pessoas talentosas que são desfavorecidas puramente pela cor da pele. A sociedade foi estruturada na base com o preconceito, seja por cor, sexo ou crença. Não podemos nos calar diante de tantas injustiças e vidas que foram tiradas de nós cedo demais pela discriminação cruel. Nosso objetivo deve ser tirar privilégios de um só grupo para que todos possam ter oportunidades iguais na moda ou em qualquer outro cenário. A mudança pode começar comigo e com você, apoie e incentive o trabalho de negros, principalmente mulheres, que não são notados como deveriam. De acordo com o Mapa da Violência, levantamento baseado em dados disponibilizado pelos governos estaduais, o número de mulheres pretas assassinadas cresceu 54% entre 2003 e 2013, enquanto o de brancas caiu 9,8% no mesmo período. A diferença no tratamento é tão intolerável quanto o sangue que escorre, e um não aconteceria com a ausência do outro. Apoie e compartilhe essa causa, vidas negras importam!

Mulheres In

Exemplos como o de Anifa precisam ser lembrados e tidos como inspiração e representatividade. Pensando em valorizar as mulheres que mudaram a história da moda de alguma forma, eu darei início ao projeto Mulheres In. Nele, eu contarei um pouco sobre como foi a vida de mulheres que precisam ser lembradas, estando ainda aqui ou não. No mês de junho vou focar em trazer personalidades negras para esse projeto e o resultado você pode conferir no IG @In.Darah, espero vocês!

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