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Um ano depois de desastre, pai realiza sonho de zagueiro morto e abre escolinha da Chapecoense em Minas Gerais

Enviado por: Redação V9 29/11/2017

Paulo, pai de Marcelo, com os alunos na Zona da Mata: “É o que nos dá força para seguir em frente” Fonte: Lara Toledo/Divulgação

Ao sair de Juiz de Fora para tentar a sorte em ‘peneiras’ em clubes do interior do Rio, em 2010, Marcelo Augusto alimentava dois sonhos: primeiro, se tornar jogador profissional de futebol. Conseguiu. Depois, já estabelecido na elite, começou a trabalhar junto com seu pai, Paulo Manoel, pela realização do segundo objetivo: criar uma escolinha de futebol na cidade da Zona da Mata para facilitar a vida de crianças que sonhavam se tornar atleta profissional como ele.

Marcelo era o único atleta mineiro no voo 2933 da boliviana LaMia, que há um ano sofreu pane seca e caiu a poucos quilômetros do destino, nas proximidades de Medellín, na Colômbia, onde a Chapecoense começaria a decidir o título da Copa Sul-Americana contra o Atlético Nacional. Morreram 71 pessoas, a maioria formada por jornalistas, jogadores e membros da comissão técnica do time.

Na semana passada, a poucos dias de a fatídica data completar 365 dias, o pai conseguiu, enfim, realizar o sonho de Marcelo: inaugurou a escolinha que leva o nome do filho, com 17 crianças vestidas com o uniforme verde do clube catarinense – a primeira escola de futebol vinculada à Chapecoense em Minas Gerais.

“Era nosso plano desde que ele estava na base do Flamengo. Não aconteceu como nós sonhávamos, mas vamos trabalhar muito para formar jogadores e homens. É o que nos dá força para seguir em frente um ano depois da tragédia”, afirmou Paulo, que além de estar à frente do Instituto Marcelo Augusto cuida de uma distribuidora de bebidas que pertencia ao jogador.

A escolinha da Chapecoense em Juiz de Fora começou a atender na semana passada, no clube Alfamatta, no Bairro Marilândia. Segundo Osnir Morais, que se dedica voluntariamente a organizar a parte burocrática do instituto, a escolinha vai atuar com alunos de seis a 18 anos. Os primeiros candidatos tomaram conhecimento pela página do Instituto Marcelo Augusto no Facebook, fizeram teste físico em setembro e 17 foram aprovados. As aulas ocorrem duas vezes por semana, terça e quintas-feiras, e vão continuar até 12 de dezembro, quando haverá recesso. As mensalidades vão de R$ 20 a R$ 100, dependendo da faixa etária.

COOPERAÇÃO O apoio da Chapecoense foi obtido por Paulo, que viajou à cidade catarinense para pedir ajuda. O clube, que isentou o mineiro de pagar a taxa de anuidade para usar a marca da Chape, se prontificou e enviou os primeiros uniformes no início do mês. “A gente vai trabalhar na formação e todo nosso trabalho será monitorado por eles. Se tiver algum jogador despontando, será avaliado e poderá fazer estágio com eles em Chapecó”, conta Paulo.

Para instalar a escolinha, o instituto contratou nove profissionais, entre treinadores e preparadores físicos, com passagens pelo Tupi, time local, e clubes do interior do Rio. Além disso, Paulo deve firmar convênio com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) para que médicos, psicólogos e fisioterapeutas acompanhem os trabalhos.

Defensor foi comparado a Dedé

Para se estabelecer no profissional, Marcelo precisou batalhar muito. Chegou a desistir depois de tentativas frustradas e trabalhou como marceneiro antes de ser incentivado pelo pai a aceitar um convite do Volta Redonda. Comparado ao zagueiro Dedé – hoje no Cruzeiro e também com passagem destacada pelo Voltaço –, Marcelo foi contratado pelo Flamengo. Após dois anos no rubro-negro, com passagem pelo time titular, não renovou com o carioca no fim de 2015 e foi anunciado no início do ano seguinte como reforço da Chapecoense. Marcelo tinha apenas 25 anos e quatro de profissionalismo quando embarcou para a Colômbia no voo que terminou na tragédia com 71 mortos. O velório do jogador emocionou Juiz de Fora.

O último ano foi de muito ação da família em memória de Marcelo. Em setembro, Paulo inaugurou o instituto com o nome do filho para “tirar crianças da rua e levá-las ao futebol”, como gosta de destacar. “Queremos trabalhar com tudo: vôlei, basquete, aulas de judô, caratê. É um trabalho duro, que estamos realizando pela memória do Marcelo”, contou.

Homenagens na Colômbia e em Chapecó

O primeiro ano da tragédia com o voo da Chapecoense foi de homenagens. Ontem, o governo de Antióquia e o Atlético Nacional, que seria o adversário da Chape na decisão da Sul-Americana, organizaram um evento em La Nación (foto). Além de uma placa com o nome das 71 vítimas e dos seis sobreviventes, os colombianos guardaram uma camisa e mensagens dentro de uma cápsula que será aberta daqui a 40 anos. Em Chapecó, a Arena Condá está aberta desde ontem com banners com imagens de momentos vitoriosos do clube. Para esta madrugada estava prevista uma procissão luminosa até a catedral da cidade, onde os sinos seriam tocados à 1h15 – horário da queda da aeronave.

ENQUANTO ISSO…

Investigações ainda não apontam culpados

Um ano depois da queda do voo da LaMia, as autoridades colombianas e bolivianas ainda não emitiram pareceres conclusivos sobre a queda da aeronave. O Grupo de Investigação de Acidentes Aéreos (Griaa), da Colômbia, chegou a divulgar relatório preliminar que reforçava a tese de falta de combustível, mas até agora não entregou o documento final. Segundo o jornal boliviano El Deber, investigação do Ministério Público da Bolívia arrolou cinco pessoas como culpadas – entre ex-funcionários da LaMia e funcionários da aeronáutica local –, mas a apuração continua em andamento.

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